ÓRION FORMA ESTRELAS EM ONDAS, A CADA 5 MILHÕES DE ANOS
As estrelas nascem em nuvens de gás, muitas vezes em grandes complexos que continuam produzindo novas gerações por milhões de anos. A forma como essa produção se desenrola diz muito sobre o que a impulsiona. A formação estelar acontece ao acaso, ou segue padrões que podem ser reconstruídos? As novas estrelas são desencadeadas por estrelas mais velhas, cujos ventos e explosões comprimem o gás ao redor?
Não há consenso, observa o artigo: uma revisão de 2022 encontrou pouca ou nenhuma evidência de padrões coerentes. Separar com detalhe suficiente os grupos frouxos e dispersos de estrelas jovens só se tornou possível graças ao satélite Gaia, que mede as posições e os movimentos das estrelas em todo o céu.
Um precedente na vizinhança
No complexo vizinho de Scorpius-Centaurus, um estudo publicado em 2023 encontrou estruturas coerentes no espaço e no tempo, incluindo vários episódios de formação estelar mais intensa espaçados por cerca de 5 milhões de anos, que se espalhavam de dentro para fora, aparentemente impulsionados pela retroalimentação de estrelas anteriores. O mesmo valeria para Órion, a região de formação estelar mais estudada perto de nós?
Alena Rottensteiner, João Alves e colegas da Universidade de Viena, trabalhando com pesquisadores em Barcelona, Praga, Cambridge (Massachusetts) e no Observatório Europeu do Sul, usaram um censo recente de Órion construído com dados do Gaia: 47 grupos de estrelas, com idades de 1,5 a 25 milhões de anos, 11.996 membros confiáveis e idades obtidas da mesma maneira para cada grupo. Neste trabalho, “aglomerado” significa uma sobredensidade estatística de estrelas, não necessariamente um grupo mantido unido pela gravidade.
Quatro ondas
As idades não se distribuem de forma suave. Ponderadas pelo número de estrelas, formam quatro picos, em 6,4, 11,3, 16,2 e 21,4 milhões de anos, separados por 5,0, 4,8 e 5,2 milhões de anos. Cada pico reúne mais estrelas que o anterior.

Distribuição de idades dos 47 grupos de Órion, ponderada pelo número de membros (em cima) ou não (embaixo); os quatro picos e seu espaçamento estão marcados. — Figura 1, Rottensteiner et al. (2026), arXiv:2610.00481.
Os autores são cuidadosos com o que afirmam:
- Os dois picos mais recentes, em 6,4 e 11,3 milhões de anos, podem ser localizados estatisticamente, reúnem juntos cerca de 59% de todas as estrelas e resistem à reamostragem dos dados e a mudanças na forma de ajustar as idades. Um teste de multimodalidade rejeita, para a distribuição das estrelas, uma única corcova suave ao nível de 10%.
- Os dois picos mais antigos, em 16,2 e 21,4 milhões de anos, são visíveis, mas ainda não se pode mostrar que são robustos. Os grupos mais velhos perderam cerca de um terço de seus membros, que se dispersaram, e isso enfraquece seu sinal.
- Menos de 0,5% de 10.000 histórias suaves simuladas produzem três intervalos tão regulares quanto esses. Os autores ressaltam que essa é uma afirmação sobre os picos da figura, “não uma afirmação de que quatro episódios distintos definitivamente ocorreram”.
Eles também verificaram que o método não poderia criar o padrão. A etapa de agrupamento usa apenas posições e movimentos, não idades. E a grade de idades tem espaçamento uniforme no logaritmo do tempo, o que não pode produzir picos uniformemente espaçados no próprio tempo. Grupos nascidos na mesma onda também tendem a ficar lado a lado: 68% têm o vizinho mais próximo no mesmo pico, contra 34% se os picos fossem atribuídos ao acaso.
Mesmo compasso, outra dança
Ao contrário de Scorpius-Centaurus, Órion não mostra um único padrão que se espalha para fora em todo o complexo. Em vez disso, a equipe encontra sequências locais: três possíveis cadeias de grupos estelares que ficam mais jovens ao longo de sua extensão — uma delas se estendendo por cerca de 130 parsecs, da nuvem Orion A até as estrelas do Cinturão de Órion — e duas regiões de grupos aparentados. Duas das cadeias começam dentro de uma cavidade em expansão conhecida como Orion Shell e ficam mais jovens para fora.
Os autores não veem contradição com uma formação estelar impulsionada por retroalimentação. Órion é mais massivo que Scorpius-Centaurus, guarda muito mais gás remanescente, e seu maior surto é o mais recente, enquanto Scorpius-Centaurus teve seu pico há 15 milhões de anos. Mais gás e estrelas jovens mais massivas deixam espaço para interações mais complexas: a retroalimentação pode comprimir o gás em novas estrelas, ou despedaçar nuvens.
Estrelas encobertas, compasso desconhecido
Estrelas muito jovens ainda envoltas em poeira estão ausentes do censo do Gaia — entre cerca de 1.850 e 2.430 candidatas. Elas poderiam acrescentar um quinto pico, mais recente, mas não alterar os quatro já encontrados. As idades absolutas também dependem dos modelos estelares usados, em 1 a 3 milhões de anos.
O que fica é um ritmo visto em dois berçários distintos. “A causa das separações de ~5 milhões de anos continua um mistério”, escrevem os autores; ela pode estar relacionada à velocidade com que a retroalimentação estelar se propaga pelo gás, uma questão que deixam para pesquisas futuras.
